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quinta-feira, 13 de julho de 2017

A "Mãe do Ruca"...

Fui fazer uma caminhada com o Miguel.
Íamos de mão dada, à conversa. De repente, aperta-me a mão, abre a boca de espanto, aponta em frente, com o braço esticadinho, o dedo em riste e diz AOS GRITOS:
- Olha, É A MÃE DO RUCA!
Olhei… Vi uma senhora, sem cabelo… percebi de imediato a analogia que o Miguel fez, no alto dos seus 4 anos.
Apressei-me a relembrar-lhe que não se aponta para as pessoas, nem se fazem referências aos gritos, já que quem é alvo desse comportamento pode ficar triste.
A senhora andava lentamente, na nossa direção, cada vez mais pertinho. Percebia-se o cansaço com que se deslocava, denunciando a doença, mas aparentemente só a mim, o Miguel viu muito além disso…
Volta à carga:
- Mas é a Mãe do Ruca, NÃO PERCEBES?!
Aquela suposta invasão da ficção dos desenhos animados na sua vida real, deixaram-no em êxtase!
Já eu… Eu estava em pânico!
Constrangida e receosa que a senhora levasse a mal. Se desconfiava que ela tinha ouvido à primeira, agora com aquela insistência e ainda mais perto de nós, tive a certeza!
Comecei a preparar um valente pedido de desculpa e a pensar no que diria ao Miguel, no tempo restante da caminhada. Devia arrancá-lo daquele mundo fantasioso e trazê-lo até à terra de gente chata? Devia falar do que é o Cancro ou deveria ficar-me apenas pela Alopecia? Ficar caladinha também me passou pela cabeça, mas sabia que ele não ia deixar…
Chegámos ao pé dela. O riso agora era enorme, em todos os sentidos! Eu precipitei-me a pedir-lhe desculpa, ela interrompeu-me com um gesto mas o sorriso rasgado permanecia luminoso. Olhava para o Miguel que estava, literalmente, sem palavras com a presença da “Mãe do Ruca”…
Foi então que:
Senhora: Olá! Então tu reconheceste-me, sou mesmo a Mãe do Ruca! Queres que lhe dê algum recado? Ele ia adorar conhecer-te!
O Miguel estava embasbacado, continuava sem palavras, apertou-me tanto a mão com aqueles dedos gordinhos que fiquei com as unhas dele marcadas em mim…
Eu: Mãe do Ruca, sabe, o Miguel gostou tanto de a ver que perdeu a voz, mas eu quero que diga ao Ruca que lhe desejo toda a força de viver e sorte do mundo! Ah, e diga-lhe também que tenho uma admiração muito grande por ele. Que vença a luta, é o que mais lhe desejo!
A senhora percebeu a minha mensagem e voltou a surpreender-me: - Ele já tem pouco tempo, mas esse pouco, para ele, é muito! Muito obrigada e ele vai vencer, se não for neste mundo, vencerá no outro!
Apeteceu-me abraçá-la… tanto, tanto, tanto! Mas podia sentir-se invadida ou pensar que era por pena dela. Mas não, era admiração!
Como se consegue aquela serenidade? Como se consegue aquela luminosidade no sorriso, aquela espontaneidade, aquela alegria? Como? Como se aceita assim aquele destino que eu nem consigo escrever, quanto mais vivê-lo… Como? Como se tem aquela força?
No resto da caminhada senti-me meio anestesiada, não sei bem o que disse e não me lembro do que ouvi.
Quando abri o portão da nossa casa, as lambidelas do Simão Cão trouxeram-me de volta! Abracei o Miguel e o Simão Cão com a força toda da gratidão que tenho por estarmos vivos, juntos e cheios de saúde.
Comecei a subir as escadas e, quando pensava já ter desviado o pensamento daquela experiência arrebatadora, deparo-me com esta imagem que vos mostro na foto… Então não é que a força da vida, em todo o seu esplendor, mora no meu jardim?!

E pronto, lá me senti novamente absorta na magia de me ter cruzado com a “Mãe do Ruca”...
Obrigado, Migocas, por me teres permitido vivenciar este momento único…
Um beijinho enorme a todas as Mães, Pais, Filhos, Irmãos,... “como a Mãe do Ruca”…
E eu que só queria um casalinho…
A Mãe dos Quatro!
#eeuquesoqueriaumcasalinho
#amaedosquatro

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