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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Estive com o Sr. Escritor!

Ontem, depois de ir buscar os meus filhos à escola, como é habitual entrámos esbaforidos no autocarro.
Apesar de estar vazio, o meu Miguel escolheu um banco repleto de migalhas de bolacha, em vez de qualquer outro dos 56 lugares à disposição. Esteve pacientemente a tirar migalha a migalhinha, enquanto eu, em pé – com medo que ele caísse, tentava, em vão, convencê-lo a mudar de poiso.
O que vale é que eu só ia com duas mochilas nos ombros, uma mala a tiracolo e 3 bilhetes enfiados entre os dedos. Estava afundada num calor que ameaçava explodir-me as bochechas e sentia as gotas de suor a brincar ao escorrega desde o topo das minhas costas até bem ali a meio do rego…
Quando finalmente nos sentámos, coloco toda aquela catrefada de coisas no colo e, no meio desta lufa-lufa, uma voz prende-me a atenção.
Era tão, mas tão familiar… Olho em frente e… UAU! Confirmou-se, era ele! Estava a fazer uma pergunta ao motorista.
Eu: Meninos, sabem quem vai ali no banco da frente, ao pé do sr. motorista?
Gonçalo: Mãe, está de costas, sei lá eu!
Eu: Deixem-me dizer-vos que até de costas sei quem é! É nada mais, nada menos, que um dos meus escritores preferidos! Tem o teu nome, Miguel, mas é carinhosamente chamado de MEC! São as iniciais de Miguel Esteves Cardoso!
Gonçalo: Então vai lá falar com o Sr. escritor!
Eu: O que ia dizer-lhe, Gonçalo?
Gonçalo: Que gostas dele!
Eu: Filho, há muuuuuita gente que gosta dele. Já está habituado a ouvir isso e vai concentrado no caminho, devemos respeitá-lo!
Entretanto, MEC agradece ao motorista e sai, pedindo desculpa “pelo mau jeito” (ou seja, pelas perguntas que lhe fez, relativas ao percurso do autocarro).
Já em casa, dei por mim sentada, com os meus filhos, a falar dos textos de MEC e a contar-lhes como me sentia quando os lia.
Chegou o homem, contei-lhe o sucedido, também ele disse que eu devia ter falado com o Sr. Escritor…
O que lhe diria?! - Pensei eu.
Bem, se tivesse falado com MEC talvez lhe dissesse:
– Parabéns pela forma desconcertante como vê o mundo e as pessoas. Obrigada por colocar em palavras escritas o que nos vai na alma, sem floreados, folhos e rendinhas. Por desmistificar o amor romântico e brindar-nos com brutalidade do amor real, que existe nas pequenas coisas da relação quotidiana connosco e com o outro. Quem ama assim não é gago! Ou, se calhar é… (permita-me a ousadia de apelar ao seu humor inglês). E a forma tenaz e corajosa como fala de si próprio - de como se vê?! Mas que grandes tomates! É fácil escrever sobre os outros, sobre nós é que não é para todos, só para os poetas, como o Sr. MEC.
Terminava contando-lhe o encantamento e a atenção revelada por 3 rapazes, de 11, 8 e 4 anos, aquando da leitura que lhes fiz de alguns dos textos do Sr. Escritor!
Ganhou mais 3 fãs!
Mas, como sei que ia atropelar-me em palavras e frases sem sentido, deitar gafanhotos de emoção, à medida que tentava desculpar-me pela tontice do momento e invasão da sua privacidade... Preferi escolher o bom senso de manter-me sentada e deixar o Sr. Escritor a salvo de um momento caricato!
E eu que só queria um casalinho…
A Mãe dos Quatro!
#eeuquesoqueriaumcasalinho
#amaedosquatro

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