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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Tive medo de perder o meu filho...

Um dia podia calhar por cá... Com 4 filhos a probabilidade é imensa. E ontem foi o dia...
Ouvi o telemóvel e era o tão temido número da escola dos 3 rapazes. Sempre que o vejo penso logo no Miguel (4 anos), é algo automático. É o mais irrequieto, o mais novo, o que fica mais vezes doente.
Do outro lado oiço: "É a mãe do Gonçalo (7 anos)? Por favor, tente ficar calma que o Gonçalo está bem mas... Chamámos a ambulância porque ele partiu a cabeça”. Está muito choroso e..."
(Deixei de ouvir... Eu estava em casa com a Clarinha. Senti as pernas bambas, a mão tremia, comecei a viajar nos pensamentos, a sentir o medo e a angústia dele por estar sem um de nós, sem a sua família. Imaginei-o na ambulância sem a minha mão… Comecei a planear mentalmente tudo o que tinha de fazer para chegar junto dele. Entretanto, lembrei-me que o Didi,o ídolo do Gonçalo, estaria lá na escola a fazer tempo para que chegasse a hora do autocarro. Isso fez-me voltar a mim, as lágrimas caiam, nem sei o que disse ao telemóvel, só queria desligar para poder falar com o Didi, com o marido e voar para lá).
Liguei ao Didi, num sopro engoli o choro e disse o mais rápido que consegui: "Amor, vai para ao pé do mano Gonçalo que ele partiu a cabeça e precisa de ti. Fica com ele até um de nós aparecer, dá-lhe a mão filho, com força, corre!".
Liguei ao marido, pedi-lhe que voasse, ele estava a trabalhar… a quase 60 km da escola.
Lancei a mão à primeira roupa que vi, vesti-me e fiz o mesmo com a Clarinha. Saí disparada de casa com a menina no colo e liguei para o Táxi. No local onde moro já sei que só com muita sorte conseguiria que atendessem o telemóvel, não a tive. Tentei boleia de algum vizinho mas nenhum estava em casa.
Voltei a ligar ao Didi e ele estava nitidamente em choque, não dizia coisa com coisa, apenas referia que o mano estava cheio de sangue, que até havia sangue no teto do wc. Recusou-se a passar-lhe o telemóvel porque ele tinha as mãos cheias de sangue. A ambulância ainda não tinha chegado.
Não vale a pena contar o estado em que fiquei depois daquele telefonema, sei que conseguem imaginar.
Não passava um único autocarro, decidi ir a pé. Queria lá saber da chuva e do peso da menina, estava a apenas 4km do meu filho.
Vejo o carro do meu marido a chegar perto de mim, acho que foi na hora H, eu estava a perder as forças. A menina chorava sem parar…
Quando estamos a chegar junto ao portão da escola recebemos uma chamada da auxiliar a dizer que a ambulância não podia esperar mais e que iam seguir viagem.
Saio do carro a correr, vejo imensos curiosos junto à ambulância, que perceberam de imediato que tinham de se desviar para me deixar passar. Não consigo expressar por palavras o que senti quando vi o meu filho, quando subi as escadas daquela ambulância, jamais esquecerei o momento em que nos olhámos e sorrimos um para o outro. Agarrei-lhe a mão, finalmente! Pedi-lhe desculpa…
Estava lívido, apático, coberto com uma manta, de cabelo ensanguentado e via-se o corte profundo.
Falámos, falámos, rimos, chorámos. Eu e o bombeiro tínhamos um objectivo claro, não o deixar adormecer. Houve momentos em que pensei que não ia conseguir. Mas, mais umas piadas, mais umas festas vigorosas e lá o íamos aguentando. O bombeiro piscava-me o olho e quando me via mais assustada tocava-me no braço. O meu desespero era tal que resolvi confiar nele, como se tivesse poderes sobrenaturais, entreguei-me…
A viagem parecia durar há horas, eu tentava disfarçar o esforço que fazia a olhar pelas frestas das janelas a fim de perceber onde nos encontrávamos… Mais uma vez o bombeiro tocava-me, mais uma vez deixei-me ir com ele…
Chegámos ao hospital, descansei, descansámos…
Por hoje não consigo contar mais…. Estou extenuada, não dormi, passei a noite numa reflexão obsessiva e focada nos “ses”, no que podia ter sido e que, apesar de tudo, felizmente não foi.
Experimentei a amarga e profunda dor provocada pelo medo de perder o meu filho e isso foi avassalador e ficará marcado em mim como uma tatuagem… para sempre!
Neste momento estou feliz, tenho-o comigo, debaixo da asa, cheio de dores mas são e salvo, sou rica, milionária!
E eu que só queria um casalinho…
A Mãe dos Quatro!

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